sexta-feira, junho 18
Tudo passa
Por favor, não me venha com esta. E muito menos tente bancar o engraçadinho dizendo que somos todos passageiros – menos o motorista e o cobrador. De todos os clichês ruins que existem, este é o pior. Que tudo passa todos sabem. Mas burro é quem não pede carona ou tenta agarrar na carroceria daquilo que realmente quer. Porque alguém não diz pro cara que acabou de ganhar na loteria que um dia a grana acaba e que tudo passa? O seu relacionamento mal sucedido, sua demissão ou a morte do seu cachorro: passa. Ninguém precisa te lembrar o tempo inteiro que você está dando valor demais a banalidades. Enquanto isso acontece, tudo passa. E sim, pode até ser verdade: está tudo passando impetuosamente. Os outros, as oportunidades, o mundo. Até a uva-passa. Você deixou passar. Não teve garra suficiente para manter. Se passa sem deixar marcas, sem deixar cicatrizes, talvez nem devesse ter passado. O que vale a pena de verdade, não, não passa. Fica cravado na pele, na memória, no rosto. Então, diga-me qualquer coisa, menos que tudo passa. Não há maior blábláblá de perdedor. Se tudo passa, talvez seja a hora de você tirar umas férias na Transilvânia. Ou em algum lugar bem longe de mim: quem precisa dar uma passada, meu caro, é você.
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